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Marca Páginas – Vernon God Little, uma comédia na presença da morte, de DBC Pierre

10 jul

Hoje no Marca Páginas temos o ganhador do Man Booker Prize, de 2003, um dos maiores prêmios literários do mundo.

D.B.C Pierre (Dirty But Clean pseudônimo do australiano Peter Warren Finlay) mergulha no humor negro e retrata o cotidiano da cidade, fictícia, Martírio, “a capital americana do molho barbecue”.

Na história de Pierre a cidade era apenas mais um ponto nos EUA e continuaria sendo pacata e insignificante se não tivesse sido, recentemente, alvo da especulação midiática devido a um massacre, ocorrido na escola local.

Vernon Gregory Little é um típico adolescente, boca suja e revoltado com a vida que leva na pequena cidade Texana, mas nada muito ameaçador. Ele é o melhor amigo de Jesus Navarro, rapaz de origem hispânica que, revoltado consigo e com a vida que leva em Martírio, resolve, acometido da loucura de um dia de fúria, entrar na escola e assassinar, a tiros, 16 pessoas, suicidando-se, posteriormente.

Esse é o ponto de partida para o nosso narrador, de língua ferina, que precisa provar sua inocência. As autoridades locais ligam, imediatamente, Vernon ao caso. O oficial Vaine Gurie está convencido de sua cumplicidade nos assassinatos, pouco se importando se Vernon perdeu o melhor amigo no tiroteio. Com 16 mortes, o crime não pode ficar impune e Vernon não consegue se livrar das acusações, apesar da inocência.

Sua única saída é desvendar os assassinatos, no entanto, preocupado em salvar os seus e envergonhado de alguns detalhes, quais poderiam provar sua inocência, Vernon omite-os, fazendo com que a polícia continue em seu encalço, mas, antes fosse apenas a polícia, Vernon sofre com a perseguição da mídia, sendo hostilizado e difamado, mesmo sem provas concretas. Preso num reality show, ele tenta desesperadamente escapar do cerco midiático, ao mesmo tempo em que foge da pequena Martírio, o que inflama, ainda mais, as suspeitas sobre ele.

A história te soa familiar? Sim, é claro que sim; também soou a mim quando li (que foi bem antes do ocorrido em Realengo). Isso porque a história de Little e Navarro nos remete a tragédia, ocorrida em 1999, que foi  o Massacre de Columbine, no Colorado (EUA); acredito que até o nome do livro de Pierre é uma espécia de menção, visto que no diário de um dos estudantes, atiradores, de Columbine ele dizia querer ser “Deus” (mas isso é só especulação, da minha parte).

O título e subtítulo fazem justiça à história. Vernon God Little é fácilmente encontrado, pois esta explícito já o subtítulo ‘uma comédia na presença da morte’, vai mais do leitor identificar os acontecimentos comicos na história, por mais que, para isso, você tenha que fazer uso de todo o estoque de humor negro que tem dentro de você!

A narrativa é pesada. No início é extremamente cansativo ler, tantas vezes, a palavra ‘porra’ assim como as menções a sexo e às partes íntimas, mas logo você se acostuma, porque percebe que faz parte do personagem; é o típico adolescente, sendo assim os palavrões e até as perversões fazem parte da necessidade de firmar-se como pessoa. Além disso ele esta numa enrascada, de que maneira esperávamos que ele reagisse?

Little é apenas um garoto que se vê numa forca com nó cego e quanto mais ele se debate, tentando livrar-se, mais apertado o nó fica, fazendo-o cometer uma série de besteiras ao longo da trama.
Vernon vê todos aqueles em quem ‘deveria’ confiar serem manipulados de forma simples e rápida e, também, aprende as duras lições que ‘importa mais o que as pessoas vão pensar’ e que ‘ignorar é mais comodo’ apresentadas magistralmente na figura da mãe de Vernon que passa o livro na expectativa de sua nova geladeira.

O livro é, na verdade, uma opinião. Pierre critica um país modelo para todo o mundo, ele desmonta o, então perfeito, american way of life quando expõe, através dos personagens, tudo que há de podre na cultura norte – americana (que eles insistem em esconder): gula, falta de educação, oportunismo, esnobismo, sensacionalismo, corrupção, falhas no sistema judiciário, fetiches estranhos, bullying, preconceito, consumismo, e, acima de tudo, a podridão humana e a falta de pauta televisiva.

O livro vai crescendo a medida que Vernon cresce e com um final surpreendente percebemos que, de tanto apanhar da vida Vernon acabou aprendendo a bater!

As vezes dá vontade de desistir porque o Vernon é um cara meio idiota, na verdade, um adolescente parcialmente drogado e com alguns problemas, porém você acaba se apegando ao garoto e querendo saber o que acontece com ele no fim, já que algumas ações dele seriam as nossas se estivéssemos na situação de desespero que ele se encontra no livro.

Pierre mantém o personagem de Vernon irônico, o tempo todo, mantendo-se na linha da caricatura, ou seja, a crítica não é direta.
Vernon já foi comparado ao personagem Holden Caulfield do livro “O Apanhador no Campo de Centeio”, de J.D. Salinger, mas, na minha humilde opinião, o personagem de Pierre não tem a mesma profundidade do personagem de Sallinger, nem de longe, uma vez que Sallinger lida com questões mais intimistas, voltadas para o personagem e suas relações sociais, enquanto Pierre extrapola na acidez do personagem para com o mundo todo, não apenas no seu ciclo social, a critica social de Pierre toma proporções mais abrangentes, porém o personagem é confuso. No livro de Sallinger ficamos conhecendo a mente de Caufield e suas impressões sobre o resto já no livro de Pierre a mente de Vernon é um turbilhão quase incompreensível; nos apegamos a ele (Vernon) mas não nos “tornamos” ele como acontece quando lemos Sallinger.

Em suma, o livro é bom. É uma critica arrasadora e que te prepara para a maldade do mundo, entretanto, se você for um admirador e defensor fervoroso dos EUA você irá, com certeza, odiar esse exemplar e me odiar, ainda mais, por estar falando bem dele, portanto, se você admite a sua paixão pelo Tio Sam não leia este livro, mas, se você quer ver como os seres humanos podem ser pútridos e como o sistema pode ser falho é uma leitura altamente recomendável.

P.s.: E pensar que esse foi só o romance de estreia de Pierre…

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1 comentário

Publicado por em julho 10, 2012 em Livros

 

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Uma resposta para “Marca Páginas – Vernon God Little, uma comédia na presença da morte, de DBC Pierre

  1. Marcos

    julho 29, 2015 at 5:35 pm

    Ola, sou Marcos. Recentemente comecei a ler o livro de Pierre,me comparando com o personagem também sou um adolescente revoltado, estúpido e ignorante como todos falam a minha volta, mas com Vernon diz… “filho de um estádio cheio de puta!”… Gosto muito de me compara com o personagem, parece que ate ele me entende (Pierre). Ainda estou no inicio do livro, tenho muito para descobri, gostei da sinopse… E adoro rir das putarias que o personagem comete é realmente um comédia! “como naquelas horas que ele chinga mentalmente as pessoas” Já indiquei esse livro para alguns amigos leitores! adoro comedia obrigado ate a proxima…

     

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