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Arquivo mensal: maio 2013

Lágrimas de Dom Quixote

Chegando ao último destino de viagem: Madrid

Eu admito que nunca tive grande apreço pelo país “Espanha” e que acabei indo parar nele só por um acaso, porque estava dando certo e, bom… massacrando todos os meus preconceitos, foi uma das cidades mais interessantes pela qual passei neste tour.

Em Madrid visitei o Museu do Prado e o Reina Sofia vi Velázquez  de pertinho, Goya, Picasso, Dalí,

Em frente ao lago e monumento do Parque do Retiro

Parque do Retiro

Caravaggio, El Greco entre outros tantos nomes e pinturas que eu achava que nunca iria mais longe que os livros de história, arte ou que a tela de um computador. Jamais imaginei que eu veria Guernica tão de perto, quase ao alcance da mão e, ultrapassando todas as aulas de sociologia e filosofia, ela se tornou maior ali na minha frente, mais significativa.

Além dos museus visitei o Parque do Retiro, um espaço verde gigante, praticamente, atrás do Museu do Prado, e qual foi a minha sorte que, exatamente naquele dia a Orquestra Sinfônica de Madrid estava tocando em comemoração a São Isidro. Me senti muito europeia naquele momento e fiz como todos os europeus a minha volta, deitei na grama e tirei um cochilo ao som de violinos e violoncelos.

O parque é enorme, há espaço para prática de patins, pessoas andando de bicicleta, por todos os lados, o tempo todo, pessoas correndo, lendo, ouvindo música, tocando e, pasmem, ficando de biquíni e/ou sunga para tomar sol e pegar ‘aquele’ bronzeado. Quando assistia essas coisas na TV pensava sempre que eram nas cidades mais na costa do país mas isso aconteceu na capital espanhola, da qual o mar está um pouco distante.

Assim que cheguei em Madrid eu conversei com o Lucas, meu namorado, e ele pediu se eu poderia passar na Instituição de Cegos, afinal é a maior do mundo. Obviamente eu disse que faria de tudo para ir até a instituição.

Fomos no Museu do Prado na sexta feira e depois de umas 5h lá dentro eu resolvi ir procurar um dos meus amigos, ver se podíamos almoçar. Encontrei meu amigo Lucas Bispo (qual a partir de agora chamarei de Bispo) conversei com ele e resolvemos não nos separar mais, para que não nos perdêssemos. Fomos ver umas últimas obras que ambos estavam interessados e depois disso saímos do museu. Sentamos por lá na esperança que nossas amigas aparecessem, depois de 1:30h esperando decidimos sair e comer alguma coisa, voltamos para a frente do Museu com nossos lanches e mais de 1h se passou e não tínhamos notícias; disse para o Bispo que iria na Instituição de cegos e que depois retornaria para casa do nosso amigo. Solidário o Bispo resolveu me acompanhar até lá. Passamos, antes, no Starbucks para recarregar as energias e mandar uma mensagem para as meninas avisando onde estaríamos.

Fachada da ONCE

Fachada da ONCE

Quando eu e o Bispo começamos a seguir o mapa em busca da ONCE (Organização Nacional de Cegos da Espanha) não imaginávamos que um fato, pode-se dizer incomum, nos ocorreria. Nos vimos um pouco perdidos e do nada vi uns dois cegos… andamos mais um pouco e estaciona um ônibus, descem uns 4 cegos juntos. Eu e meu amigo nos olhamos e falamos “Acho que estamos no caminho certo”. Que ilusão, enquanto nós subíamos a rua eles estavam se preparando para descer. Fiquei preocupada e decidi perguntar. Suavemente, toquei o ombro de um senhor cego e perguntei, em inglês, se ele poderia me ajudar. Ele respondeu que sim e quando comecei a falar, explicar onde eu queria ir a mulher, que o acompanhava, e pelo jeito não entendia muito de inglês começou a se intrometer e atrapalhar nossa conversa perguntando, em espanhol, o que eu queria. Ficou uma confusão que ninguém mais se entendia. Felizmente meu amigo resolveu tomar partido e falou em espanhol com a senhorinha que sossegou e aí conseguimos, ele em espanhol e eu em inglês, entender que eles estavam indo para o mesmo lugar que nós procurávamos e, se quiséssemos, poderíamos acompanhá-los. Óbvio que aceitamos e foi assim que eu e meu amigo nos vimos sendo guiados por 3 cegos, dois com cães guia e um de bengala. No meio do caminho tinha uma pedra uma das mulheres, a com o cão-guia, deu-se conta que havia perdido a blusa que carregava eu e o Bispo saímos correndo fazer o caminho de volta para encontrar o suéter perdido. Encontramos, devolvemos e isso ajudou para o entrosamento com o pessoal.

Conversamos bem pouco mas eles me perguntaram o porque estávamos indo até a ONCE já que enxergamos,Eu e a Estátua de Cão guia eu respondi que queria ir até a loja para ver se havia algo que meu namorado pudesse gostar, perguntaram sobre o Lucas e eu fui respondendo a tudo, que ele também tem cão-guia, nome, raça, cor, se era brincalhão, se eu gostava dele, porque o Lucas não estava junto esse tipo de coisa. Um deles, não sei até se o Bispo ouviu isso, após o interrogatório sobre mim e meus motivos de ir até a ONCE disse: Você esta de férias em um país e cidade diferente, podendo fazer qualquer coisa, e esta indo para uma Instituição, que não tem muita coisa a oferecer para você, só porque alguém pediu? – diante da minha resposta positiva (e feliz) ele disse – Nice girl. Confesso ter ficado bem contente em ouvir aquilo pois tive a certeza que estava fazendo algo legal por alguém que eu realmente gosto.  Claro que queria que o Lucas estivesse estado junto, mas… paciência.

Chegamos na ONCE e lá me despedi dos melhores guias de Madrid, um deles, ao me abraçar fez votos ao namoro e desejou felicidades. Entrando na instituição eu comentei sobre a estátua de cão-guia e todos eles no mesmo momento falaram – Take Pictures, take pictures! (claro que obedeci).

Eu e o Bispo fomos até a loja, não tinha muita coisa, na verdade, alguns jogos, relógios falantes esse tipo de coisa que eu achei que o Lucas não iria gostar tanto.  Tinha, também, um indicador de nível de líquidos, achando-o o mais interessante eu pedi para ver, a mulher explicou como funciona e decidi levar aquele mesmo. Achei que seria o mais útil para o Lucas. Se você quiser saber mais sobre o Liquid Level Indicator é só clicar neste link aqui.

Quero deixar claro aqui que precisei e agradeço muito a ajuda do meu amigo Lucas Bispo; a mulher da loja não falava nada em inglês e só consegui ter uma comunicação mais efetiva com ela graças a ajuda do meu amigo que mandou ver no Espanhol – obrigada!

Saindo de lá percebemos que já era um pouco tarde e resolvemos voltar para casa, mas antes iríamos até a Puerta Del Sol comprar um relógio que o Bispo queria. Andamos, andamos e andamos mais um pouco até chegarmos ao centro de Madrid; achamos uma loja nerd… tirei fotos com o C3PO e com o Mestre Yoda, o Bispo comprou o relógio e, juntos, compramos uma gominha gigante, de um metro (cara, eu disse que a Espanha é tipo uma capital mundial das gominhas).

Andamos por mais váááários quilômetros até chegarmos em casa, cansados mas satisfeitos com o nosso dia.

Quando cheguei em casa liguei o Skype e minutos depois o Lucas me chamou… contei para ele o que tinha comprado e pela reação dele vi que havia acertado no presente. Que bom!

Ainda em Madrid eu tirei mais fotos com o Dom Quixote e o Sancho Pança, desta vez, uma estátua gigante Eu na frente da estátua de Dom Quixote e Sancho Pança no meio da Praça da Espanha… ai ai, nem preciso falar que fui a única a subir até a estátua e tirar fotos entre o cavalheiro e seu fiel escudeiro. Por algum motivo, entre as estátuas, me veio uma recordação de toda a história, detalhada, de Dom Quixote e de como ele lutou até o fim pela sua Dulcinéia; em meio a todas as interpretações filosóficas que se pode ter dos moinhos de vento e de tudo o mais que há no romance de Dom Quixote algumas das passagens me afloraram mais a mente quais prefiro não revelar, mas que acabei adaptando a meu próprio contexto, a minha própria vida e aí confesso que um pequeno e passageiro cisco caiu no meu olho.

Uma das frases que mais gosto, a respeito de Dom Quixote, é a seguinte: “Dom Quixote, que viveu a alegria da loucura, morre lúcido de tristeza”. Na verdade, foi essa frase que me fez ter vontade de ler Dom Quixote, anos atrás.

Infelizmente no nosso último dia pegamos uma manifestação contra o governo e não pude comer meu sanduíche de Jamón e tive que me contentar com um subway, mas tudo bem, não se pode ter tudo o que se quer nessa vida.

Durante nossa estadia em Madrid ficamos hospedados na casa de um amigo, Ricardo, qual nos tratou muito bem e a quem me sinto na obrigação de dedicar um muito obrigado, por todas as dicas, empréstimo de casa, por tudo. Valeu, cara.

Madrid foi uma cidade qual me deu dó de se despedir. É um lugar aconchegante, familiar, me senti bem em Madrid. No entanto, uma hora tínhamos que voltar à realidade e as 21:50h da noite do dia 12 de maio pegamos o trem, na estação Chamartin, com destino a nossa querida Cidade dos Estudantes e demos um Hasta la vista à capital espanhola onde encerramos nossa viagem.

Se você ainda não leu os posts anteriores clique nos links que seguem para saber como foi nossa estadia no:

Deserto

Marrakech

Toledo

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Toledo – a cidade das espadas

Depois do deserto e depois de Marrakech vamos, hoje, relembrar a viagem por Toledo, a cidade das Espadas.

Chegamos em Toledo ainda pela manhã e começamos a andar pela cidade muito animados, entramos em várias lojas para ver espadas e armaduras…. todo tipo de instrumento de luta que você possa imaginar e claro com sessões próprias do Senhor dos Anéis.

A cidade em si é linda, como não poderia deixar de ser, algo que foi preservado e lembra o cenário de um

Panos que haviam entre as casas, cobrindo e fazendo sombra nas ruas da cidade

Um teto, de tecido

filme medieval . Não houveram muitas paisagens nessa viagem mas isso porque a cidade era meio que um forte, ou seja as casa tampam a visão que se teria por cima dos montes, nós só temos noção do lugar quando chegamos em um mirante que tem no meio da cidade.

Entre as casas há uns panos que fazem sombra sobre a rua e achei aquilo genial, protege do sol e, quando chove, dá uma segurada no fluxo da água. A cidade ficava bem mais fresquinha onde tinham aqueles panos em cima. Achei uma ideia muito boa e me perguntei porque não há isso nas cidades mais quentes do mundo.

Visitamos uma igreja muito bonita e que não parecia ter todo o tamanho que tinha. Era, simplesmente, enorme. Infelizmente não era possível tirar fotos mas posso garantir para vocês que foi um dos lugares mais bonitos e impressionantes que já vi, principalmente por pensar que aquilo tudo foi esculpido a mão em tempos remotos.

Andando por Toledo nós passamos na frente de uma escada e, olhando para baixo, eu vi uma figura muito

Eu de braço dado com a estátua de Miguel de Cervantes

Eu e Cervantes!

conhecida,  sai correndo em disparada na direção dela, gritando para que meu amigo viesse com a câmera… bom eu vi a estátua de Miguel de Cervantes e, sério, parecia uma criança que recém ganhou uma caixa de gominhas. Eu abracei a estátua, fiz pose, tirei foto, tirei outra foto, abracei de novo, falei para meus amigos umas mil vezes que era Cervantes e divagava que, apesar de ele ter morado em Madrid, eu poderia estar caminhando pelas mesmas ruas que ele caminhou, poderia ter sentado no mesmo banco que ele sentou quando teve a inspiração para escrever Dom Quixote. Eu estava tão empolgada em ter, de certa forma, Cervantes tão pertinho que nem me toquei que meus amigos não estavam entendendo toda aquela animação; eles ainda não leram o livro do Dom Quixote e por isso não compreendiam o porque eu estava tão contente em ver a estátua daquele autor e porque, cada Dom Quixote que eu via, valia uma foto.  De buenas e exageros a parte, continuamos nosso trajeto

Eu acho que a Espanha deve ser tipo uma capital mundial das gominhas. Toda loja que entravamos, que vendiam coisas para comer, independente do estilo, poderia ser mó buteco de esquina, eles tinham uma prateleira toda colorida com as mais diversas gominhas. Sabores, formatos,  cores… um carnaval! Todas elas absolutamente deliciosas, sério, não tinha erro e eu nem preciso dizer que fui feliz entrando numa dessas lojas e que diminui um presente da minha lista, afinal eu estava presenteando a mim mesma.

Terminado o passeio turístico pela cidade nós decidimos retornar às diversas lojas que havíamos entrado e comprar aquilo que tínhamos em mente. No meu caso: uma pistola, uma espada, estátuas pequenas do Dom Quixote e do Sancho Pança e um chaveiro legal.

Eu comprei a pistola, que o cara falou que na verdade é um trabuco, em uma loja pequena perto de uma igreja que minha amiga queria visitar. Entrei na loja, comecei a olhar aí o cara veio nos atender e queria vender a arma por 52EUR (muito caro para meus padrões) quando eu e meu amigo abrimos a boca e falamos qualquer coisa, que nem me lembro mais o que, o vendedor começou a baixar o preço da arma. Ele nos dizia que era porque somos brasileiros e todo brasileiro que entra na loja dele leva alguma coisa. No fim eu levei a arma por um preço beeem mais camarada que os 52EUR iniciais.

Depois da arma acompanhei meus amigos para comprar o que eles queriam, até que foi rápido, e aí voltei às minhas compras, era a vez das estátuas… encontrei uma loja que estava com uma promoção de 20% de desconto no valor da segunda peça comprada; consegui meu Dom Quixote e o Sancho Pança por 10EUR os dois, e eles são lindos, tão lindos quanto a própria Dulcinéia.

Mostruário de Trabucos No fim faltava uma espada pequena e meu chaveiro. A espada eu pensei em levar para o Lucas e por um motivo que alguns amigos entenderão eu escolhi levar para ele uma miniatura da Espada de Odin, fiquei um pouco insatisfeita com o tamanho, achei pequena, maaaaaas é a espada de Odin, então tá valendo. E meu chaveiro, que comprei na mesma loja da espada, que é a parte de cima da roupa de um toureiro. Eu não concordo com touradas, acho aquilo ridículo, devia ser proibido, mas não posso fazer nada se é o símbolo do país!

Saí de Toledo querendo levar a cidade inteira na mochila. Vi cajados do Gandalf, artigos do Harry Potter, Senhor dos Anéis, Kill Bill, Eragon, V de Vingança, Blade, Final Fantasy, Hobbit entre muitos outros e eu quis ter trazido todos comigo mas não tinha como… ooh dó.

Acabou que trouxe o que tinha planejado e só, mas estou bem feliz com as coisas que comprei em Toledo. Gastaria bem mais, se tivesse grana, mas as vezes é vantagem ser estudante com a verba contada!

Ao deixar Toledo me decepcionei ao constatar que a cidade foi feita para que você gaste e ponto. Não há vitrine de espadasgrandes atrações turísticas no local, não há muita oferta de turismo e eu acho que poderia ser bem melhor aproveitado, no entanto, ao que parece, o foco deles é ganhar dinheiro com a venda de artigos que remetem a filmes etc e não com o turismo, pela cidade em si. Eu, se morasse lá, acho que tentaria mudar um pouco isso, é um lugar incrível e que tem muito a ser explorado e muita história a ser contada. Seria bom se alguém estivesse disposto a contar e investir nisso.

Contudo, apesar dos pesares, o passeio foi incrível e as compras ainda melhores!

 

Se você não leu e quer saber como foi o início dessa viagem doida clique aqui e aqui.

 

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Marrakech

E lá vamos nós contar sobre mais uma parte da viagem: Marrakech!

Mas se você ainda não leu a primeira parte clique aqui para saber o que aconteceu no Deserto de Zagora!

No dia que chegamos em Marrakech foi uma coisa de outro mundo. Vimos a praça toda iluminada com tambores africanos soando ao fundo, pessoas cantando e fazendo negócios, bem ali, na nossa frente, comentamos que nos sentimos entrando numa cena de filme.  Nesse dia a temperatura até que estava agradável cerca de 28 graus… eu digo agradável porque, nos dias seguintes, não pegamos nada menos que 38 graus. O inferno na terra.

Como eu já contei as histórias do deserto vou focar apenas na cidade, no post de hoje.

Marrakech é sim uma cidade turística mas você nem tem tanta vontade de fazer turismo devido o calor… na verdade, quando dava três da tarde eu e o resto do grupo decidíamos voltar para o Hotel e ficar por lá, na sombra, porque não conseguíamos  nem andar, tanto era o calor naquela cidade. Acho que eu fui uma das que mais sofreu com isso, como sou das regiões mais frias do Brasil, 23 graus para mim é verão e não estou acostumada com essas temperaturas elevadas e, cara, eu derretia, quase que literalmente.

Alguns dos pontos turísticos de Marrakech que visitamos foram:

 

El Badi, visto do alto

El Badi

–       Palácio El Badi: construído para celebrar a vitória sobre os portugueses em 1578, hoje o palácio esta em  ruínas, mas umas ruínas muito bonitas, o sutão que morava lá construiu umas cinco piscinas no pátio do palácio, nem precisa explicar o porque né… cara esperto.

–       Palácio Bahia – arquitetura incrível, muito bonito mesmo e construído de maneira a ficar sempre fresquinho… funciona melhor que ar condicionado.

–       Tumbas Saadianas – sério, nunca vi um “cemitério” tão bonito quanto esse. É incrível.

–       Jardim Menara – uma bela de uma porcaria, tudo seco e um lago extremamente sujo no meio. E eu ainda pisei num parafuso no caminho… doeu.

Tumbas Saadianas, colunas ao fundo e as tumbas na frente

Tumbas Saadianas

 

Eu passei beeem rápido pelos pontos turísticos, como puderam perceber, porque a parte mais interessante de Marrakech não foi isso. A parte mais legal da cidade foi ir as compras e negociar com os vendedores. Vou contar algumas coisas que aconteceram durante esses negócios.

Para ficar mais fácil de entender: a moeda local é o dihan e a cotação é: 1Euro equivale a 10 dihans e souk é o mercado onde se vende de tudo, tudo mesmo!

Nos primeiros dias em Marrakech fomos comprar lenços, estávamos em seis pessoas e chegamos numa venda, começamos a olhar, perguntar preços… bom o moço percebeu que estávamos interessados e começou a negociar. A principio ele queria 150 dihans por um lenço, começamos a pechinchar e ele baixou para 100 dihans, ainda não estávamos satisfeitos e pensamos em ir embora o moço nos chamou e ofereceu outro lenço por 50 dihans, oferecemos 30… ele aceitou.

Escolhemos alguns lenços daquele expositor e começamos a ver outros, porque cada um de nós iria levar, no mínimo, dois. Escolhemos uns outros e começamos a negociar… depois de um valor que ficou cerca de 90 dihans pelo lenço que queríamos ele ficou irredutível e não quis mais baixar, vimos que o negócio não seria vantagem e começamos a nos organizar para ir embora e nem levar os primeiros lenços. Eu queria muito um daqueles em especial porque sei que minha irmã vai adorá-lo então quando meus amigos se viraram eu voltei e falei para o vendedor:

–       Nós somos em seis pessoas, cada uma vai levar, no mínimo, dois lenços… você tem certeza que quer perder esse negócio?

Aaaii, o cara me olhou de um jeito muito feio, deu uma bufada e gritou – 70, 70 – haha foi o suficiente para que meus amigos retornassem e comprássemos os lenços, que eram 150 por 70 dihans! Fizemos um ótimo negócio.

Um outro ótimo negócio que eu fiz, individualmente, foi no último dia de viagem. Eu havia conversado com

Souk em Marrakech

Souk

meu namorado, Lucas, e ele,  nem um pouco humilde, pediu que eu levasse um narguilé marroquino para ele. Lá vai a Thaisa ver se acha o tal do narguilé (aaah Lucas, o que eu não faço por você?) eu e meu amigo, que me acompanhou nessa busca, andamos, andamos e andamos mais um pouco no souk… encontramos uma loja arrumada, com uns narguilés na frente, e entramos. O moço que nos atendeu foi extremamente simpático, buscou vários narguilés para que eu pudesse vê-los, tocá-los e decidir qual seria melhor, ele trouxe dois modelos então eu e meu amigo optamos por um feito manualmente, em madeira e com detalhes coloridos na parte do metal… o moço explicou que aquele era o tradicional marroquino, sem a barriga, ele falou que queria uns 140 dihans no narguilé… oopa, aí é caro demais né! Ele baixou para 100 dihans e não queria mais baixar; o problema: demorei muito para achar aquilo, gostei e queria levar de qualquer maneira – espírito turco, ativar – tentei negociar mas ele disse que não poderia baixar tanto por ser trabalho manual etc etc, a conversa seguiu mais ou menos desta forma:

–       Tá,  eu entendo, mas se eu levar alguma outra coisa, podemos tentar outro acordo de preços?

–        Aí podemos tentar.

–       Ok, vou escolher

Virei-me e vi uma chaleirinha, muito bonita, feita a mão também, peguei-a e perguntei o preço: 50 dihans!

Voltamos a negociação. Ele queria me cobrar 180 por tudo (neeem a pau)

–       Pago 160!

–       170

–       140

–       160

–       Não, agora só pago 130!

–       140!

–       120!

–       Vamos ficar no meio 135!

–       Isso não é o meio; eu pagaria 130, agora 120… o meio é125!

–       Ficamos em 130!

–       Não, minha oferta é 125!

–       130

–       Fechamos em 125! Vamos, 125!

Ele olhou para a mochila que eu ganhei de um amigo meu, o Raphael Motta e disse:

–       125, mas a sua mochila fica comigo!

–       Haha não posso ganhei de um amigo e já me salvou de muita chuva! Vamos fechar em 125… é um presente, para meu namorado, ele me pediu isso até estudou sobre narguilés marroquinos para entender melhor! Vamos lá!

–       Oook, 125, moça!

E foi assim que o Lucas ganhou um narguilé marroquino.

Foi legal negociar com os caras, eles cobram um preço super alto para que você pechinche, é claro que eu teria feito um bom negócio de tivesse pago 150 ou 140 no narguilé e na chaleirinha mas, se eu aceitasse tão rápido eu teria acabado com a diversão do cara, e com a minha também, confesso. O fato é que lá você não pechinchar é falta de educação e ponto, por mais barato que as coisas pareçam você precisa pechinchar, é a cultura deles. Quem fala isso são os próprios guias, que explicam que o pechinchar é uma maneira de se divertirem, fazer negócios é meio que um orgulho para eles.

Agora que já narrei um pouco as coisas que aconteceram no souk vou falar da comida. Comíamos muito bem por 1 euro (10 dihans). Teve um dia que dissemos que iríamos extravasar e comer pra caramba, nesse dia gastamos 4 euros.

Tajine Marroquino servido em uma forma especial, de barro

Tajine Marroquino

Em Marrakech, eu experimentei salada marroquina, sopa marroquina, tajine, cuscuz, um doce (que tinha gosto de perfume), omelete… vários sucos e até um ou outro refrigerante que me chamava atenção.

Uma das melhores coisas na gastronomia do Marrocos é a laranja. Nós pagávamos 0,40 centavos de euro por um copo, grande e cheio, de sumo de laranja, o cara só expremia a laranja e tomávamos, sem açúcar nem nada e era ótimo. Doce, gelado… saboroso. Apesar de meus amigos discordarem eu acho que comi muito bem no Marrocos e gastando muito pouco.

Ao final de todas as compras, gorjetas, taxi, alimentação, eu gastei, em uma viagem de cinco dias, apenas 60 euros!

Jardim Menara, algumas árvores num terreno extremamente seco

Nossa decepção: Jardim Menara

Sobre a segurança, bom, eu sempre andava ao lado do meu amigo, aí achavam que ele era meu marido/namorado então não tive muitos problemas com isso mas com as gurias que estavam conosco, se elas andavam muito na frente, sozinhas os caras já vinham conversando e tal (uma situação um pouco desconfortável).

Fiquei com muita raiva em ver eles comercializando iguanas, jabutis e lagartos no souk além é claro de querer dar um tiro toda vez que um cara judiava de um macaquinho ou cobra colocando-os em turistas.

Agora, vamos a parte mais trágica da viagem: a ida ao Jardim Menara. Nos venderam aquilo como um lugar lindo com sombra, grama e água fresca…  Andamos cerca de 2 quilômetros para chegar num lugar seco e sem grama. O pior disso tudo foi no caminho eu ter pisado em um parafuso e ele ter entrado no meu pé.

Meu amigo foi a única pessoa do grupo que permaneceu comigo nesse momento difícil da minha vida

pé, já lavado, com o buraco do parafuso.

Momento sensacionalista: meu pé, já lavado, com o buraco do parafuso.

(sentiram a emoção?) e ele fez a coisa mais linda de toda a viagem, pegou o bem mais precioso que possuíamos, a água mineral, e jogou no meu pé para lavar o machucado (vejam que pessoa linda), lembro de ter chorado e, pensando agora, acho que foi mais por ver ele jogando água mineral fora do que pelo meu pé machucado (haha). Felizmente estou vacinada e não corro risco de pegar tétano, agora o buraco já fechou e esta tudo bem (um viva: Viva!).

Teve um dia que eu fixei na minha cabeça que queria comer melancia, passamos a viagem toda buscando esse fruto, só encontramos no último dia e a compramos por 28 dihans. Chegamos no Hotel o cara da cozinha cortou para nós e comemos aquilo como se fosse a oitava maravilha do mundo. No dia seguinte, no café da manhã concluímos que, pelas poucas idas ao banheiro, nosso corpo estava tão desidratado  que absorveu toda a água da melancia, como uma esponja… achamos isso algo muito louco, afinal, foi uma melancia inteira!

Lembro que numa das últimas noites fiquei na área comum conversando com meu amigo até de madrugada e no meio da conversa ele falou: Nossa, amanhã é o último dia aqui no Marrocos. Eu soltei um: pois é; seguiu-se um minuto de silencio e do nada nós dois soltamos um sonoro: Ainda bem! (hahaha), não que o Marrocos tenha sido ruim, muito pelo contrário foi uma experiência para a vida mas nós já estávamos cansados, do calor, do barulho, da agitação e da vida, aparentemente, sem regras do souk onde sempre andávamos. Queríamos a calmaria europeia novamente e o clima também.

Torre da mesquita Kutubia, em Marrakech

Mesquita Kutubia: de onde ouvíamos as orações 

É uma cultura muito diferente, sendo assim, muito difícil de se acostumar em tão pouco tempo.

Uma das coisas mais marcantes de Marrakech eram os horários de orações, da torre da mesquita havia um alto falante que ouvia-se na cidade toda  e em horários corretos, todos os dias, a oração. A cidade inteira parava para ouvir, essa foi uma das coisas que mais marcaram a nossa estadia em Marrakech.

Marrocos, como um todo, foi sensacional, mas estou muito feliz no lado da cultura ocidental e acho que não troco tão cedo!

 

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Aprendi contigo a navegar, em qualquer tempo, qualquer mar… pai!

Semana passada tentei escrever algo antes de sair de viagem mas não consegui, eu tinha que estudar para uma prova e estava extremamente ansiosa para o Marrocos. Bom, agora que passou só posso dizer que foi uma das viagens mais incríveis que já fiz na minha vida, acho até que eu terei que dividir em partes essa publicação para não ficar tão exaustivo.

Acho que aqui vou falar mais sobre a viagem ao deserto e nos próximos posts eu falo sobre Marrakech, Madrid e Toledo!

No dia 02 de maio eu encontrei alguns amigos e nós pegamos o Trem-Hotel noturno para Madrid, de lá pegaríamos um voo até Marrakech. Vale adiantar que minha viagem já tinha tema musical antes mesmo de acontecer: Duas Noites no Deserto do Engenheiros do Hawaii (nunca fez tanto sentido).

Atravessamos o estreito de Gibraltar  e chegamos em Marrakech umas 20:00h fizemos check-in no Hotel e por um erro de datas descobrimos que iríamos para o deserto as 07:00h do dia seguinte.  Tentamos ir dormir cedo para ter pique, bom… cedo nós não conseguimos ir dormir mas no outro dia estávamos tão entusiasmados com a viagem para o deserto e para andar de camelo que acabamos por vencer o sono.

Iogurte marroquino, branco, com um pedaço de morango no centro

Iogurte Marroquino

A viagem de Marrakech até o deserto durou cerca de 7h passamos por várias vilas e cidades; experimentei Salada Marroquina, Tajine e Iogurte marroquino (este último uma maravilha a parte). Passei por paisagens que ainda não me parecem existir de verdade, contrastes extremamente interessantes; de um lado da estrada uma plantação de palmeiras e do outro: deserto.

Nosso guia, um marroquino, falava um inglês capenga mas ainda assim percebíamos que ele tentava interagir conosco… eu e meu amigo ficamos nos sentindo meio mal por não entendermos ele direito e aí durante um momento de solidariedade nós dois resolvemos dar papo para o cara e nos esforçamos ao máximo para entender tudo o que ele falava… valeu a pena. Claro que perdemos muita coisa mas, depois desse nosso esforço, ele passou a explicar várias coisas da estrada e formações de vilas e montanhas para nós, contou curiosidades e volta e meia perguntava como estávamos todos, se era necessário parar para ir no banheiro etc.

Passamos o dia todo na estrada e quando era umas 18:00h chegamos no lugar onde estavam nossos camelos. Foi estranho montar neles, eles são grandes, largos e beeeem altos… meus amigos tiraram muito sarro da cara que fiz quando subi no camelo porque, segundo eles, foi muito “ai meu Deus, onde fui me meter?”.

Andar de camelo foi incrível, ele é tipo um cavalo gigante mas para os mais nerds eu posso  descrever que andar de camelo é ter a sensação de estar em um dos drods gigantes, no final de Star Wars, em Ameaça Fantasma, na verdade, todo o passeio no deserto pareceu uma paisagem de Tatooine.

Sombra de três camelos na areia do desertoO meu camelo eu batizei em homenagem ao cão guia do meu namorado; meu camelo ficou conhecido como Timmy. O Lucas, meu namorado, já se pronunciou mais de uma vez afirmando que deve existir um Timmy em cada espécie… bom, camelo já esta ok.

Chegando no acampamento nos serviram o tradicional chá de hortelã marroquino e sentamos em uma duna onde ficamos conversando por um bom tempo com nosso anfitrião, ele nos explicou a origem do chá e mais algumas coisas, perguntou nossos nomes e falou como eles seriam em árabe, eu seria chamada de Áiza, segundo ele…. foi desta maneira que ele me chamou até o fim da nossa estadia no deserto.

Cerca de meia hora depois fomos convidados para o jantar tradicional; nos serviram uma sopa deliciosa com um grão que eu não sei qual é, seguida por Tajine de frango e finalizando com laranjas salpicadas de canela – cada um melhor que o outro.

Durante o jantar um holandês muito simpático se ofereceu para tirar foto do nosso grupo, claro que aceitamos e agradecemos ao menino.

Ao final do nosso banquete fomos convidados a sentar em torno da fogueira onde cantaram música tradicionais com instrumentos orientais e nos fizeram dançar. Houve jogos e conversas… foi algo muito diferente e de grande valor cultural.

Eu conversei mais um pouco com o holandês e, cara, que família simpática. A primeira pessoa que conversou comigo foi a mulher, mãe dos piás e a senhorinha é um amor, comentou que eu parecia cansada, Berber servindo o chá de hortelã de boas vindasperguntou se precisava de alguma coisa, questionou a viagem, quanto tempo, porque etc. Essas coisas que perguntamos quando queremos conhecer alguém, ela introduziu na conversa os dois filhos, um deles que havia tirado a foto para nós e mais uma vez me surpreendi como as pessoas podem ser simpáticas; um deles ficou conversando comigo por uns quarenta minutos, depois que eu comentei que pretendo visitar Amsterdam em julho, ele perguntou onde eu gostaria de ir, se já sabia onde iria me hospedar, quanto tempo, quem mais iria, e deu algumas dicas de como aproveitar a cidade. Todos os três perguntaram o que eu estava achando da viagem e da experiência pelo deserto. Eu os achei muito, muito simpáticos mesmo e adorei bater um papo sobre qualquer coisa com pessoas que nunca tinha visto na vida, foi legal.

As tendas eram divididas de três em três pessoas. Eu dividi com mais dois amigos que tinham viajado comigo o Lucas Bispo (vamos diferenciar por sobrenome porque começou a ter muito Lucas nessa história) e a Michele mas antes de ir dormir resolvemos ficar observando as estrelas que estavam dando um show a parte… papo vai, papo vem, nós começamos a falar sobre alienígenas e, véi, me arrepiei inteira, mas isso seria o de menos se alguns minutos depois não tivéssemos visto no meio do nada e do escuro dois olhinhos vermelhos vindo em nossa direção, não preciso nem falar que entrei correndo para a tenda, meus amigos vieram logo depois quando os pontinhos vermelhos se aproximaram um pouco mais. Alguns minutos depois nós pensamos e decidimos que devia ser só uma raposinha do deserto e tínhamos nos assustado por nada (haha, mas aí eu penso, para que arriscar né?!).

Acordamos a noite com barulhos muito fortes no teto da tenda, ela tremia toda e o som era assustador, nós três resolvemos acender a luz e ficar um pouco na várzea para nos acostumarmos com o barulho. O vento estava muito forte e suspeitamos de uma pequena tempestade de areia, o que, provavelmente, originou as dunas do dia seguinte.

Fomos acordados, definitivamente, as 5h da manhã, para que pudéssemos tomar o café, com direito a geléia de damasco, e para que desse tempo de assistirmos ao nascer do sol no deserto. Foi lindo, uma visão que vou guardar, com certeza.

Nascer do sol entre as montanhas do deserto

Foto tirada pelo amigo Lucas Bispo

Passado esses momentos nós arrumamos nossas coisas e, ainda pela manhã, deixamos o acampamento, em cima dos nossos camelos. Chegamos até a nossa van e fizemos o percurso de volta para Marrakech.

No carro conversando com meus amigos eu me toquei de como senti falta de algumas pessoas, nessa viagem, de uma em especial.  Confesso até ter me emocionado um pouco a constatar isso e bom a pessoa que mais senti falta nessa viagem foi do meu pai.

Senti falta do meu pai porque nós começamos a levantar teorias sobre as formações montanhosas, vegetação, exploração regional, constelações, animais… tudo, e ao não saber responder todas as dúvidas que surgiam para nós eu percebi o quanto meu pai me fez falta. Ele, com certeza, saberia nos dizer qual era a constelação que ficamos mais de uma hora observando no céu aquela noite, saberia explicar o porque aquelas montanhas tinham aquela formação atípica, como é a árvore e a produção do óleo de argan, porque as casas são todas da mesma cor entre outras questões que surgiram ao longo da viagem.

foto eu e meu pai

“Só se for contigo, só contigo… duas noites no deserto”

Apesar de estar sentindo muita falta do Lucas, meu namorado (pensando que ele adoraria a comida e andar de camelo, além é claro de só estar com ele), dos amigos (como seria divertido tê-los ali) , irmãs ( de como elas ririam de mim por eu ter fugido dos et’s), mãe (como ela teria tentado adivinhar todos os temperos da comida) mesmo eu pensando, a todo momento, o que cada um deles iria gostar;  na estadia no deserto, em especial, foi a vez de sentir falta do Seu Rubi; de pensar o quanto eu gostaria de ser mais como ele, de ter metade da inteligência e do interesse dele pelas coisas, foi o momento em que caiu a ficha de que como o mundo com as explicações sobre cada coisa é mais interessante.

Foi ali, conversando com meus amigos na van, que eu quis ter trocado de lugar e queria que ele, e não eu, tivesse vivido e visto tudo aquilo.

A viagem para o deserto foi uma experiência única, que me ensinou que, antes mesmo do destino, a companhia é o que faz as coisas serem inesquecíveis.

 

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