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Latíbulo

04 set

Acordei sufocada. As mãos doloridas como se tivesse que fazer alguma coisa para que elas não explodissem, pulei da cama comecei a me mexer, arrumei a cama, lavei louça, limpei a casa, costurei roupas, fiz de tudo para manter minhas mãos ocupadas demais para que não doessem novamente… nada adiantava, elas continuavam doendo, tremendo e me atormentando.

Comecei a ficar preocupada, fiz massagem, busquei pomadas, cheguei ao ponto de ir no hospital. O médico disse que não havia nada a fazer, apenas esperar a dor passar, afinal, eu estava complemente normal;  com a saúde mais firme que barras de adamantium.

Meu desespero durou dois dias, depois disso começou a piorar. Minha cabeça incomodava, eu sentia enxaquecas insuportáveis e o  mundo começou a girar, girar, girar…. até se transformar no tapete almofadado, que mantenho impecavelmente limpo, na sala de minha casa. Não me lembro por quanto tempo eu dormi ( ou desmaiei, como preferir) só lembro de acordar e as dores perdurarem em meu corpo como se eu tivesse levado uma surra digna de filmes de heróis. Nesse momento minha língua tornou-se apenas um fiapo, como se alguma coisa tivesse diminuído suas qualidades, tomei litros de água e não sabia mais o que fazer.

Deitei no sofá e liguei a TV… pra que fui fazer uma coisa dessas? Meus órgãos pareceram se revoltar contra mim, eu sentia eles se deslocando e voltando rapidamente aos seus lugares para provocar cólicas. Meu cérebro parecia gelatina sendo transportada em cima de um trator ele parecia mexer e impedia que os pensamentos saíssem condizentes um com os outros.  Desliguei a TV e me arrastei até o quarto, lá eu fiquei por horas, apenas tentando entender o que estava acontecendo comigo, acabei adormecendo.

A campainha tocava, eu não queria me levantar para atender, o som parecia cada vez mais estridente, ainda assim resisti a vontade de mandar a pessoa que estaria a porta ir e só deixei que o som fosse abafado pelo mundo dos sonhos. Infelizmente a danada da campainha foi insistente e, contrariando todos os meus desejos de que ela tivesse estragado, tocou mais uma vez, e outra e mais outra… levantei.

Ao abrir a porta, a vizinha do sexto andar, olhava para mim com olhos cansados de quem já viu muita coisa nessa vida e que não espera ver muito mais. Ela, apoiada em sua bengala cor de sangue, simpaticamente, abriu um sorriso e me disse com toda a simplicidade do mundo:

–       Não se pode alimentar com qualquer coisa uma alma que é feita de palavras, minha querida.

Ela preparava-se para sair quando compreendi que não havia entendido absolutamente nada do que ela tinha falado, convidei para entrar, ofereci um chá…. coisas que ela, educadamente, recusou.

Desconheço  o verdadeiro motivo do porque a abracei e, chorando, pedi que me explicasse o significado de suas palavras (talvez, porque naqueles olhos cansados eu tenha visto uma esperança para minha situação, mas jamais saberei).

Como uma avó ela me acolheu no seu abraço e falava, incansavelmente:

–       Você só precisa de algumas palavras, meu amor. E eu sei que você vai encontra-las.

Soltou-me e futricou agilmente na sua bolsa cor de caramelo; de dentro dela tirou um pequeno dicionário e disse:

–       Talvez isso ajude-a a começar.

Eu me entreti com o dicionário, pelo que me pareceram alguns segundos, e esqueci de agradecer, quando dei por mim ela já havia ido embora.

A principio o dicionário me pareceu um souvenir estranho para se dar a alguém principalmente porque ele não era de uma língua só, nele haviam várias palavras de várias línguas e o significado de cada uma delas, expressões também faziam parte de seus verbetes, o que me deixou confusa em um primeiro momento mas não demorou muito para perceber que eu devia ler o pequeno presente.

Folheei o dicionário como se fosse o livro de aventura mais interessante que já li, fechei os olhos e, ao acaso, escolhi uma palavra. Ao ler a palavra latíbulo, que significa: esconderijo, retiro, lugar de segurança e conforto, dei conta, mais uma vez, de meu corpo e meus pensamentos. Eu não estava mais confusa e muito menos dolorida e foi então que compreendi o que a minha, simpática, vizinha do sexto andar quis dizer: Palavras!

Uma alma composta por palavras deve ser, sempre, alimentada com palavras, senão fica velha, carrancuda… sofre. Sofre os males que sofrem aqueles cujas palavras limitam-se a placas, avisos e legendas de TV.

Guardei meu dicionário, onde guardo as coisas importantes, e tratei de ir alimentar-me com as palavras que eu pudesse encontrar e, enfim, encontrei, nas páginas de um romance, perseguida por ogros e um leprechaun, o meu, agora tão estimado latíbulo.

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1 comentário

Publicado por em setembro 4, 2013 em Livros, Uncategorized, Vida Besta

 

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Uma resposta para “Latíbulo

  1. Gabriel Viviani

    setembro 4, 2013 at 3:05 am

    Interessante, caracola…Se eu fosse você desenvolveria melhor essa história, fazendo com que a trama se apresente com mais vagar, detalhando melhor os personagens, etc. Um abraço.

     

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