RSS

Arquivo mensal: outubro 2013

O final

O sol brilhava como no mais perfeito dia de verão.  Não era um dia para se estar naquele lugar pensava ela… aquele dia fora feito para brincar de bola ou pular numa piscina e não para entrar num carro junto com sua mãe que iria dirigir até o único hospital da pequena cidade onde viviam.

Era só mais um dia, que diferença faria? Ela estava emburrada não tinha sido feita para frequentar lugares fechados e com pouca circulação de ar, pelo menos era isso que ela pensava sobre os hospitais apesar de estar sendo a primeira vez que ela entraria em um.

No meio da tarde a mãe grita mandando que ela pegasse alguns livros e gibis para levar até o hospital.

–       Por que meus livros? Por que meus gibis? – pensou ela, egoísta que só.

Percebendo a hesitação o pai a chama e fala, em seu ouvido, algumas palavras que jamais saberemos quais foram, mas que fez com que desmanchasse a cara feia e selecionasse alguns de seus melhores gibis para levar.

Entrou no carro como se estivesse a caminho de uma execução, a mãe dirigia lentamente na avenida principal o que só fazia sua tensão aumentar mais.  Chegando ao destino final ela saltou do carro, respirou fundo, recusou-se a pegar na mão da mãe para atravessar a rua e se dirigiu a porta principal do Hospital. Na recepção a mãe identificou-se e as duas entraram no prédio.

Enquanto caminhavam uma enfermeira dizia que,  caso se sentissem mal poderia retirar-se ou pedir ajuda a qualquer funcionário. Nossa protagonista sentiu-se ofendida com a oferta, afinal era apenas um hospital, e seguiu seu caminho com o nariz empinado.

Passaram por algumas alas espaçosas e com um agradável cheiro de desinfetante, mas, de repente,   o cenário mudou um pouco: os corredores estavam ficando mais estreitos, o ambiente mais escuro e o cheiro de desinfetante dava lugar a um cheiro doce, pútrido e bastante enjoativo. Ela continuou andando e, na metade do caminho, agarrou a mão da mãe que contava e apontava todos os lugares por onde tinha andado e o que tinha feito enquanto trabalhava naquele lugar.

As duas chegaram até a ala dos doentes. Haviam várias camas, separadas por cortinas; todas estavam ocupadas, as pessoas tossiam, respiravam com dificuldade e, acima de tudo, olhavam curiosas para elas. A menina começou a sentir-se nervosa e angustiada, agarrava ainda mais forte e mão da mãe e pedia para sair dali. A mãe fazia de conta que não escutava.

A enfermeira as levou até o leito onde havia um homem deitado, ele segurava o pescoço como se algo o incomodasse, tinha um cheiro ainda mais doce do que a sala que ela havia passado antes, estava coberto com um colcha branca e seu rosto tinha uma expressão de dor que só ela se sentia capaz de entender.

Seus olhos se encheram de lágrimas ao perceber quem era aquele homem, aquela figura debilitada, era irreconhecível para ela.

–       Vô! – dizia ela com a voz trêmula – vô… tudo bem? Trouxe uns gibis para você. Sei que gosta de ler, o senhor sempre me incentivou, achei que gostaria de ter algo para se distrair!

Ele sorriu e tentou, sem sucesso, dizer um muito obrigado. O estado deplorável de sua garganta só permitia que ele emitisse alguns curtos sons e muito obrigado não estava entre eles. Mesmo assim a menina sacudiu a cabeça como quem acaba de receber um cafuné, deixou o livros na mesinha ao lado da cama e segurou na mão do avô, apertou-a, com a força de quem já sabia que seria a última vez. A mãe conversou, por alguns minutos com o homem, algo como transferência e tratamento na capital, ele apenas concordava com tudo, acenando levemente a cabeça, enquanto isso a menina o olhava com os olhos cheios de lágrimas que produziam um mar espelhado por trás dos compridos cílios infantis. Quando a mãe chamou seu nome e disse que estavam de saída a menina foi até o lado da cama, pegou a mão do avô, apontando para os gibis, disse:

–       Agora eles são seus!

Ela despediu-se silenciosamente e voltou a agarrar a mão da mãe. Olhou para trás uma última vez e sentiu sua cabeça rodar, a visão ficou turva e os pés a traíam constantemente. Ela não queria acreditar que era seu avô, ele sempre carregava um gibi ou mesmo um livro na mão, ele disse que as histórias de faroeste eram sempre as melhores e que, apesar do bandido parecer mais ativo e até astuto, o mocinho sempre levava a melhor, ele dizia que o que vale no livro não é o final, o final é só um enfeite para não ficarem pontas soltas, dizia que o final dos livros, constantemente, limitavam a imaginação e criatividade do leitor, o importante do livro era a história, os personagens, as atitudes e, mais ainda, nós mesmos. O livro não existe sem o leitor, era isso que ele havia ensinado de mais valioso para a menina que andava agarrada a sua mãe pelos corredores do hospital.

–       Quando ele volta para casa, mãe? – perguntou, já sabendo a verdade.

–       Em breve, filha.

Mas a menina sabia que ele não voltaria, que aquela fora a última vez que ela tinha visto seus gibis e seu avô, sabia que era a última vez que ele veria os olhos que sempre a enxergaram como outra pessoa, como outra menina e em outra época.

Anúncios
 
Deixe um comentário

Publicado por em outubro 29, 2013 em Uncategorized, Vida Besta

 

Tags: , , , , , , ,

 
%d blogueiros gostam disto: