RSS

Arquivo mensal: dezembro 2013

Laranjas

O ano está chegando ao fim e junto com ele a depressão de final de ciclo que, segundo um amigo muito estimado, é normal para qualquer pessoa. Ontem eu fiquei profundamente sentida ao perceber que semana que vem é natal mas a magia que eu sentia para com esta data acabou se perdendo com o passar dos anos e com as responsabilidades que foram sendo assumidas.

Eu sempre gostei do Natal: enfeitava a casa, arrumava a árvore, empacotava presentes e duas semanas antes eu vivia com um toca vermelha na cabeça. Infelizmente não tenho mais feito isso porque me parece que as pessoas a minha volta não se importam mais e, para mim, o natal não pode ser só meu ele precisa acontecer num todo.

Hoje eu tive a felicidade de comer uma laranja no café da manhã. Diferente das outras pessoas (acho), eu fico muito feliz ao comer laranjas. Aprendia a valorizar elas em março deste ano, durante o intercambio.

Enquanto eu estava fora do país conheci um Polonês, seu nome é Arthas; nós tentamos fazer um programa de Tandem. Uma vez por semana nós nos encontrávamos por duas horas e eu tentava ensinar um pouco de português e cultura brasileira para ele e, em troca, ele tentava me ensinar um pouco de polonês e da cultura polonesa.  Numa de nossas conversas eu estava explicando sobre as comemorações no Brasil e falei do Natal, falei das comidas, principalmente as que tem na minha casa e percebi que ele me olhava com olhos arregalados e curiosos. Quando parei de falar ele me perguntou se era sempre da mesma forma o Natal no Brasil e eu respondi que sim, pelo menos na minha casa, desde que me lembro. Então ele começou a falar que na Polônia era muito diferente, que eles não  ganhavam muitos presentes, que a ceia não é como a nossa e que era ainda mais diferente quando ele era criança.

Arthas tem cerca de 35 anos de idade isso significa que ele passou a infância numa Polônia comunista cheia de privações. Eu não tinha me tocado disso até ele falar: “ Como você sabe, até 1989 a Polônia era comunista e nós não podíamos ter nada que o governo não permitisse. Nós tínhamos o que tínhamos e só, não poderíamos simplesmente sair e comprar outras coisas, isso era proibido”

E foi com esse início que ele me contou uma das histórias mais marcantes que eu ouvi e que vou dividir com vocês agora.

“ Na minha casa nós não tínhamos geladeira. Era preciso entrar na lista de espera do governo e nosso número ainda não tinha sido chamado, então nossa carne tinha que ser conservada no sal e os demais alimentos precisavam ser frescos para não estragar, por sorte na Polônia é frio e minha mãe conseguia conservar os alimentos em baldes com gelo assim conseguíamos reaproveitar as comidas.  No Natal não era nem um pouco parecido com isso que você me contou do Brasil. Lá, nessa época, o governo permitia a entrada de produtos estrangeiros no país mas eles eram caríssimos. As famílias então compravam cestas de laranjas e davam umas as outras.”

Nesse momento eu interrompi sem acreditar: “ Laranjas? A fruta laranja?”

Ele calmamente falou “Sim, a fruta laranja” e retomou a história.

“ Elas davam laranjas porque era difícil encontrar, era um presente para a família toda e para nós, naquela época,

Laranjas enfeitadas com cravossimbolizava generosidade e demonstrava o quanto nos importávamos. Eu lembro de um Natal em que ganhamos uma cesta com seis laranjas. Minha mãe chamou eu e meus irmãos para nos reunirmos na mesa, ela, então, escolheu a laranja mais bonita do cesto e descascou, depois disso colocou em um pratinho e dividiu em 6 partes  – que era o número de pessoas na mesa – deixou todos no prato limpou as mãos e sorriu para nós, eu lembro que minha boca já estava cheia de água. Ela foi pegando de um em um pedaço e distribuindo entre eu meus irmãos e meu pai e sempre que entregava ela nos desejava feliz natal.

Eu lembro deste Natal porque foi a vez que todos tínhamos uma laranja no cesto.”

Foi a minha vez de olhar para ele com olhos arregalados e curiosos. Eu disse que não fazia ideia daquilo e que para mim isso parecia estranho. Ele me explicou, então, que durante o regime comunista eles foram privados de muita coisa e por isso eu achava tão estranho porque no Brasil não vivemos esse regime, como a Polônia, senão eu entenderia.

A partir deste dia eu nunca mais comi uma laranja do mesmo jeito.
Espero que vocês tenham gostado de saber dessa história que aconteceu comigo e espero que isso os faça pensar como me fez pensar.

Confesso que, assim que ele foi embora, eu fui até a geladeira e peguei uma laranja. Ela nunca me pareceu tão gostosa.

Boas Festas, homelessness!

Anúncios
 
5 Comentários

Publicado por em dezembro 17, 2013 em Uncategorized, Vida Besta

 

Tags: , , , , , ,

 
%d blogueiros gostam disto: