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Ritmo tardio

01 ago

Tudo movia-se rápido demais, impossível de acompanhar com os olhos já abarrotados de informações anteriormente captadas, ainda assim, ela tentava, a todo custo, fazer parte daquilo. Um mundo frenético, ao qual ela parecia não pertencer.
As coisa que pareciam tão simples para as outras pessoas, simplesmente não faziam sentido em sua cabeça, as pessoas com quem se importava não lhe atribuíam o mesmo valor, as músicas, sabores e cheiros que lhe agradavam eram indiferentes a tantos outros. O mundo girava solitário e apático aos olhos de Sandra, haviam tantas coisas erradas, tantas pessoas que se projetavam para a ignorância e tanta gente que não dava valor ao que tinha, que ela, paulatinamente, decidiu que algo estava errado.
Sandra gostava de sentar-se nos bancos da praça e olhar o movimento da rua, as pessoas apressadas, falando em seus celulares com baterias fracas, os carros barulhentos e os animais irritadiços com tanta coisa acontecendo em volta.

As vezes a menina (que já estava mais para uma adulta sem rumo) sentava-se, propositalmente, perto de outras pessoas.

Gostar de ouvir a conversa alheia não é fazer fofoca, pensava Sandra, é mero interesse pelo íntimo humano.

Ela conheceu tanta gente assim… gente falsa, gente triste, ranzinza e, seu tipo favorito, gente esperançosa. Apesar de não parecer, a menina pensava e acreditava muito no futuro, ela almejava o futuro mais que qualquer outra coisa do mundo, sempre foi assim, desde criança. Sandra queria estar afrente de todos, desbravar o mundo, se decepcionar, inventar, sorrir e chorar no mesmo dia, criar novas expectativas e perder medos irracionais, Sandra queria, acima de tudo, viver, com todas as suas vantagens e desvantagens, mas, ali, ouvindo a conversa de estranhos na praça, Sandra encarava um lago espelhado que refletia sua própria mediocridade e que a estapeava, lembrando-a, que seus sonhos e desejos não deixam, agora, de ser poeira de estrelas. Ela não se lembrava quando é que tudo tinha mudado tão bruscamente, quando ela passou apenas a apreciar a esperança, no lugar de tê-la , e quando ela se tornou espectadora de sua própria existência.

Lágrimas borraram a maquiagem mal feita e sua boca torceu-se de uma forma feia, lamentando-se pela mesquinharia de sua própria vida. Desesperada, buscava desculpas, infindáveis, no cérebro (que ela pensava não ser capaz de usar), nenhuma das desculpas serviu. Ela viu-se responsável por sua própria miséria, pela própria flagelação de seu estado emocional e pela estaticidade total de seus sistemas de reação.

Sandra havia se perdido tão profundamente em sua negatividade que não tinha forças mais para retomar as rédeas de sua vida, mas, como só uma pessoa inconsolável é capaz de fazer, a menina negou tudo isso e colocou na cabeça que, dali em diante, tudo seria diferente, que ela iria mudar.

Em semanas, Sandra sentia-se melhor, estudava com mais afinco, lia mais e tinha, inclusive, seus momento de alegria, mas havia uma coisa com a qual ela não contava e que acaba com todos, a rapidez do mundo, conseguia desanimá-la.

A menina tentou lutar contra a força máxima do relógio, “No seu ritmo, no seu ritmo, no seu ritmo” repetia ela, num infinito bordão. Sabemos, no entanto, que o tempo é implacável e só permite o ritmo dele, aquilo que não acompanha é deixado para trás… Sandra, aos poucos, foi percebendo isso e desistindo, mais uma vez, dos sonhos agora impossíveis, das alegrias agora distantes, das pessoas que já não significavam nada e, devagarinho, sem perceber, como quem tira, distraidamente o chapéu para um cortejo desconhecido, Sandra esqueceu-se e desistiu de si mesma.

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Publicado por em agosto 1, 2014 em Uncategorized

 

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