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Conversa de avô e neto

–       Olá… alooouuu, tem alguém aí?

Não havia ninguém em casa apenas a escuridão, as luzes estavam todas queimadas e os sons pareciam tão mais assustadores naquele casebre mal-cheiroso e úmido.  Não fora sempre assim, houve vezes em que as varandas eram cheias de flores e haviam animais correndo pelo jardim, era uma alegria a casa que se iluminava toda vez que ele chegava lá.

Fernando gritou mais uma vez para dentro da escuridão… não houve resposta. Também pudera já fazia algum tempo que aquela casa não era visitada, a casa era de seu avô. Pessoa de quem Fernando fora muito próximo na infância, não haviam segredos entre os dois e as brincadeiras sempre podiam ser adaptadas a medida que seu avô apresentava dificuldades de locomoção.

 Mesmo sem nenhuma luz Fernando entrou na casa, passo após passo, ele ia sendo engolido, cada vez mais, pelos rangidos da casa velha; felizmente Fernando não precisava de luz ele conhecia aquela casa como a palma de sua mão e poderia andar por ela de olhos fechados, ou no escuro, sem trombar com nenhum móvel. Falando em móveis eles não estavam mais por lá haviam sido retirados como se a casa não fosse mais habitável mas ele não se importou e continuou sua trajetória pela casa onde cresceu. Fernando procurava pelo avô mas ele não aparecia e nem respondia aos seus chamados, ele começou a ficar preocupado e gritava a plenos pulmões o nome do avô, que não respondia. Chegando na sala onde costumavam fazer as refeições Fernando forçou os olhos para um objeto que rodava sem parar no meio da sala, era um peão que parecia girar eternamente em seu próprio eixo, ele apenas sorriu e continuou procurando pelo avô.

 Haviam muitas lembranças naquela casa e Fernando recordava de cada uma delas. Do avô tentando explicar-lhe o jogo de gamão, de como o adversário vai sufocando o outro para conseguir ganhar no tabuleiro, Fernando, ainda menino, jamais conseguiu ganhar do avô o jogo dos reis e o rei dos jogos; em contrapartida o avô nunca conseguiu ganhar de Fernando um desafio de bulica. Quando se juntava com os meninos para bater bola na rua o avô sempre era o juiz e o que Fernando mais detestava era que ele nunca dava uma colher de chá para o neto, sempre era muito imparcial o que resultou em muitas derrotas para o time de Fernando. O avô seu Oscar pagava picolés para a meninada mas sempre fazia com que Fernando pegasse um sabor diferente, ele detestava ver o neto fazendo sempre as mesmas coisas, insistia pelas novas experiências, apesar de Fernando adorar picolé de morango provou os mais diversos sabores para agradar o avô que vivia dizendo que o melhor sorvete é aquele que você detesta no começo mas ama no final , essa teoria fez com que comprasse, uma vez, um sorvete de pimenta para Fernando e o fez provar na frente do amiguinhos… todos odiaram mas seu Oscar fez Fernando ir até o fim e sussurrava para o neto:

–       Fernando, diz  que você irá até o fim porque essa pimenta não pode com você.
 Fernando fez o que o avô disse e conseguiu ser o assunto do campinho de bola por duas semanas como o menino corajoso que derrotou um sorvete de pimenta. Fernando acabou amando o sorvete, no fim, e seu avô mais ainda.

Os dois eram muito unidos até que Fernando cresceu e teve que sair de casa para ir para a faculdade. Seu Oscar foi junto deixa-lo na Universidade e ficou meia hora com Fernando no quarto falando ninguém sabe o quê. Conversa de avô e neto, diziam os familiares que nem tentavam se intrometer na relação dos dois pois sabiam que logo logo seriam deixados de lado… não havia o que separasse avô e neto.

 Depois de cerca de 6 anos a maior alegria de Seu Oscar foi ver o neto graduado mal sabia ele que alegria maior estaria por vir quando Fernando desceu do palco com o canudo e entregou ao avô dizendo que tudo aquilo só tinha sido possível porque ele existia. Os dois se abraçaram e choraram até que seu Oscar mandou ele virar homem e voltar para o palco.

 De repente, em meio a tantas lembranças boas Fernando começou a lembrar-se do avô em agonia, pedindo sua ajuda. Seu Oscar debatia-se como se pudesse se libertar de algo e tentava a todo custo alcançar o neto. Fernando entrou em desespero ao ver a pessoa que fizera dele o que era, agoniando, Fernando não seria nada sem ele, fora ele quem o fizera ser diferente, quem o fez  acreditar e fora por causa daquele homem que Fernando escolhera o que fazer da vida. Fernando começou a chorar,  gritar  e debater-se..

–       Fernando, Fernando…. acorda! Tá tudo bem, querido, tá tudo bem, foi só um sonho – uma mão suave e voz doce de mulher o tirava daquele pesadelo.

–       Aah Alice, era meu avô… Alice eu sinto tanto! – abraçou a esposa e chorou.

Cerca de uma hora depois Fernando pulou da cama e vestiu-se rápido, pegou as chaves do carro e dirigiu por cerca de vinte minutos.  Seu celular tocava incessantemente, ele era um homem muito ocupado, cheio de emergências, o tempo todo. Atendeu o telefone e disse:

–       Ana, preciso de quarenta minutos, ok… adie tudo.

–       Mas, doutor, a ala da geriatria está lotada, precisamos do senhor!

–       Quarenta minutos, Ana – e desligou.

Fernando caiu de joelhos sobre a terra ainda úmida da chuva que caíra a noite, as flores estavam começando a murchar ao lado do bloco de mármore em que estavam. Ele precisava conversar e só uma pessoa poderia ouvir o que tinha para dizer, só a pessoa que importava. Fernando abraçou a lápide de seu avô e balançando-se lenta e repetidamente sussurrava:

– Me desculpe, me desculpe…. eu não consegui salva-lo, me desculpe.

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Publicado por em fevereiro 10, 2014 em Uncategorized

 

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